Compaixão, não descompaixão, é um valor que merece ser defendido

La Belle Equipe
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Compaixão, não descompaixão, é um valor que merece ser defendido

sexta-feira, 20. Novembro 2015
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Compaixão, não descompaixão, é um valor que merece ser defendido

Edward Peters

Poucos podem ter ficado impassíveis diante dos eventos em Beirut e Paris do final da semana passada. Esta manhã a emoção dos últimos dias me abateu. Talvez tenha sido a emoção reprimida de ter chegado em Paris sexta-feira passada pouco antes dos assassinatos começarem, de presenciar a tragédia in loco com amigos franceses, de visitar o café mais afetado... talvez tenha sido também uma dor profunda sobre como nosso mundo e nosso povo, que é inerentemente tão bonito, está sendo desfigurado, ou mesmo destruído, pelas forças de ódio, vingança e superioridade.

Emoção é inevitável em uma hora como essa e nós temos visto muito disso. Ela pode nos levar à raiva, vingança, desespero e medo. Talvez ela também possa nos levar a um mais profundo – e mais forte, mais desafiador – lugar de humildade, piedade e compaixão.

Há muitas formas para caracterizar a luta no mundo atualmente. O que ressoa mais profundamente para mim na presente crise é a luta entre amor e ódio, entre dignidade e demonização, entre humildade e arrogância, entre responsabilidade e culpa.

O Presidente da França Hollande diz que a resposta francesa às atrocidades será impiedosa. Bastante compreensível, mas isso não nos colocaria ao mesmo nível que os ‘terroristas’? não é a ‘Compaixão’ um dos valores ocidentais que orgulhosamente defendemos?

O Secretário de Estado John Kerry descreve os terroristas como ‘psicopatas’. Mesmo que isso seja verdade, que é certamente uma questão para se debater, isso nos tira do eixo. Nós podemos exterminar psicopatas como sendo seres sub-humanos, e nos dispensar o trabalho difícil de autoanálise.

O comentador para o Oriente Médio e veterano britânico Robert Fisk, quando perguntado sobre ‘para onde iremos daqui para frente?’, responde que ‘primeiro temos que entender como chegamos até aqui. Senão iremos apenas repetir os erros que produziram o que temos agora.’

Nada justifica o que aconteceu na sexta-feira `a noite. Uma resposta forte é necessária. Mas estamos iludidos se pensamos que a linguagem do poder irá responder ao ódio e à violência.

O trabalho realmente difícil que precisa ser feito é procurar um entendimento do porque o Oriente Médio e a Europa estão em crise – e, para nós europeus, reconhecermos nossa parcela de responsabilidade. A raiz dos problemas da atual desordem vem de séculos atrás e constitui um desafio mais profundo para nosso modo de pensar e viver ocidental do que estamos preparados para enfrentar. Nós queremos com razão defender nossos melhores valores, mas não conseguimos entender ou aceitar que alguns dos nossos valores sejam indefensáveis.

Enquanto isso, de volta na Suécia onde eu moro, o país está sob alerta de alto risco de ataque terrorista pela primeira vez na História. Os noticiários noturnos continuam dominados pelo fluxo de refugiados.

Estamos em um momento de perigo sem precedentes e oportunidade sem paralelos para uma nova abordagem.

Richard Rohr diz que não devemos deixar um lugar de dor até que ele tenha ensinado a nós todos o que temos que aprender com ele. Podemos, nós como europeus, rejeitar reações instintivas e aceitar a chamada para uma reflexão mais profunda sobre nossa sociedade, seus valores e nossa responsabilidade?

Foto de La Belle Equipe por Edward Peters

Edward Peters é um membro do Conselho Internacional de Iniciativas de Mudança Internacional. Ele mora na Suécia.

NOTA: Indivíduos de muitas culturas, nacionalidades, religiões e crenças estão ativamente envolvidos com Iniciativas de Mudança. Esses comentários representam as opiniões do escritor e não necessariamente os de Iniciativas de Mudança como um todo.

Tradução por Natália Pasher