terça-feira, Fevereiro 28, 2012

Rob CorcoranEm seu primeiro discurso como estadista em 1964, o Presidente Lyndon B. Johnson declarou uma “Guerra à Pobreza” e lançou uma extraordinária gama de programas de bem-estar. Ele teve a visão moral para desafiar o país para ser o seu melhor.

Leia o discurso [em inglês]

Hoje os Estados Unidos parecem ter declarado guerra à pobreza. O país é agora a sociedade mais desigual dentre os países desenvolvidos.

Em 2012, mais de 46 milhões de americanos vivem na pobreza. Vinte e dois por cento são crianças. A diferença nos resultados de testes entre estudantes de alta e baixa renda cresceu 40% desde os anos 1960 e é hoje o dobro da diferença entre negros e brancos. O salário mínimo é metade da quantia considerada necessária para cobrir as despesas básicas de sobrevivência e ter uma reserva para aposentadoria e emergências.

Os americanos são extraordinariamente trabalhadores e alguns dos mais mal pagos fornecem o melhor serviço. Ainda, aqueles que vivem na linha de pobreza ou abaixo dela são frequentemente definidos por políticos e outros como preguiçosos inúteis. Programas de bem-estar social são acusados de beneficiar minorias. Mas o maior foco de Lyndon Johnson inicialmente era atenuar a pobreza entre os brancos pobres em Appalachia. Em toda a nação, há muito mais pobres brancos do que pobres negros.

O tema da pobreza está notadamente ausente do discurso político atual dos dois partidos. Há ainda um alto nível de hipocrisia e negação. O New York Times observa que até mesmo os críticos da chamada “rede de segurança” cada vez mais dependem dela. Na verdade, a maioria dos benefícios do governo não contempla mais as famílias pobres. Americanos de classe média, muitos dos quais condenam os gastos excessivos e a propaganda do governo, contam com o Seguro Social, Assistência Médica, bolsas de estudo, assim como vários outros benefícios.

Por que os Estados Unidos têm tanta dificuldade em enfrentar a pobreza? No livro “Riqueza Comum – Economia para um Planeta Lotado”, de 2008, Jeffrey Sach cita Alberto Alesina e outros economistas cujos trabalhos mostram que a evolução das despesas sociais tende a ser maior onde clivagens sociais e raciais são menores. Diz Alesina: “A discórdia racial exerce um papel crítico em determinar crenças sobre os pobres... Em todos os países, a fragmentação racial é um poderoso indicador de redistribuição. Nos EUA, a raça é o indicador mais importante de suporte ao bem-estar social”.

Sachs acrescenta: “No final das contas, o modelo de bem-estar social se reduz à uma forma de crença. Parece que as pessoas estão mais dispostas a aceitar altas taxas de impostos se elas souberem que suas contribuições estão financiando programas que ajudam pessoas como elas”. É importante, ele diz, que os cidadãos se identifiquem com os beneficiários dos programas governamentais. “Elas são menos inclinadas a isso se as divisões socioeconômicas coincidem com as divisões étnicas e raciais. Este é o ponto central. O custo do racismo é enorme.”

Outro fator é que os EUA desenvolveram uma economia baseada em salários cada vez mais baixos. Um comentarista escreveu que “todo o nosso sistema econômico consiste em pagar às pessoas menos do que elas merecem”. As demandas dos consumidores por produtos baratos, a obsessão das empresas por lucros a curto prazo, e o comportamento predatório da comunidade financeira devastou o setor manufatureiro americano, que já foi uma fonte de bons empregos sólidos. A pressão implacável causada pela terceirização resultou que o trabalhador médio americano ganhe menos hoje do que há 30 anos, considerando a inflação.

Ainda, mesmo com o atual alto nível de desemprego, muitas empresas estão com dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados. O país precisa urgentemente reestruturar a educação para ensinar as habilidades técnicas necessárias no século XXI.

Nós temos que reconhecer que estamos todos juntos nisso. Como diz Elizabeth Warren, que criou a agência de fiscalização financeira do Presidente Obama, “Não há neste país ninguém que tenha enriquecido por conta própria – ninguém. Você construiu uma fábrica lá fora? Bom para você. Mas eu quero ser clara. Você coloca seus produtos no mercado usando as estradas que o resto de nós pagou. Você contratou trabalhadores que o resto de nós pagou para educar. Você está seguro em sua fábrica por causa dos policiais e bombeiros que o resto de nós paga... você construiu uma fábrica e isso pode se tornar algo ótimo, ou uma grande ideia. Deus te abençoe – tenha sempre isso em mente. Mas parte do contrato social que está por trás é: você tira proveito disso e passa adiante à próxima geração que virá.”

Cada um de nós deve fazer sua parte. Estamos dispostos a pagar alguns centavos a mais pelo nosso hambúrguer para que a pessoa que nós serve possa ter um salário digno? Aqueles que (como eu) estão próximos da aposentadoria estão dispostos a contribuir mais pelos nossos benefícios para que as próximas gerações possam aproveitá-los? Os moradores dos bairros mais privilegiados apoiarão programas de moradia e transporte público, de forma que os moradores das cidades do interior possam chegar aos seus novos empregos? E todos nós, incluindo os mais ricos, apoiaremos o investimento necessário em nossas escolas e na infraestrutura nacional de base?

Eu acredito fortemente que os nossos líderes políticos subestimam a capacidade dos americanos de fazer escolhas altruístas. Incensar os instintos básicos de medo e ressentimento é uma injustiça com a generosidade e o bom senso deste país.

Em Fresno, Califórnia, uma cidade com extremos de riqueza e pobreza e onde as escolas lidam com escolhas dolorosas quanto ao orçamento, o superintendente de educação reduziu seu salário anual de U$250.000,00 para U$31.000,00. Ele disse, “Minha esposa e eu pensamos: o que nós podemos fazer que possa talvez ajudar a dinâmica em minha área de atuação?”

Iniciativas de Mudança tem uma longa tradição em inspirar pessoas de todas as origens a viver de forma menos individualista. “Se todos se importarem o suficiente e todos repartirem o suficiente, todos terão o suficiente”, tem sido a sua filosofia. Em 1935, meu pai, que viveu a pobreza e o desemprego, foi inspirado por um industrial que preferiu reduzir sua casa a reduzir sua força de trabalho durante a Depressão.

Em Richmond, Virginia, o programa Esperança nas Cidades lançou o “Desvendando o Censo de 2010: as novas realidades de raça, classe e jurisdição”. Quarenta facilitadores comunitários estão utilizando no trabalho uma apresentação poderosa para alertar sobre o panorama de mudanças dramáticas nas necessidades humanas e estimular o diálogo honesto sobre opções políticas para mudar o quadro de pobreza e inequidades estruturais.

Os Estados Unidos rumaram em direção à desagregação racial em parte porque isso foi visto como assunto de segurança nacional. Nós não podemos oferecer liderança confiável para um mundo que está saindo do colonialismo enquanto continuamos a discriminar dentro de casa. Hoje, a maior ameaça de segurança no país não é o terrorismo. É o crescimento da desigualdade econômica e a descrença causada pelo colapso do contrato social de um dia razoável de trabalho por uma remuneração diária razoável, junto com um senso de sacrifício compartilhado pela nossa comunidade nacional. Iniciativas de Mudança precisa trabalhar para encorajar um novo senso de responsabilidade compartilhada e para restabelecer esta confiança.

Rob Corcoran é o Diretor Nacional de Iniciativas de Mudança nos EUA e fundador do programa Esperança nas Cidades.