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Participantes de Cí­rculos de Paz em Sidney

Participantes de Cí­rculos de Paz em Sidney

Do Sudão a Sidney, mulheres estão lidando com as questões que estão na base da divisão e da disfunção em famílias e comunidades. Jean Brown, coordenadora internacional de Criadoras de Paz Internacional, escreve:

‘Não me calarei!’, disse com a intensa autoridade de uma mulher a qual encontrou sua voz pela primeira vez. ‘Os sentimentos negativos que tinha sobre a vida mudaram, compartilhar com confiança remove muita amargura – este é o começo. Não devo me calar sobre o que aprendi aqui’. As palavras dessa professora de uma escola municipal no Quênia foram ecoadas por outras confrontando questões de preconceito tribal e religioso, abuso familiar e instabilidade política. Pouco antes do massacre que seguiu as eleições de 2007, essas mulheres da oficina Criadoras de Paz foram identificando as principais disfunções de seu país e sua parte na causa e possível cura.

Felicita, da outra ponta da pequena cidade, falou de como ela alertava seus filhos sobre nunca se casarem com alguém de outra tribo, para serem cuidadosos. De repente viu que ela era parte do problema no país, plantando as sementes da desconfiança e medo. Reuniu seus filhos – agora adultos – e se desculpou por passar adiante esses preconceitos. Outra jovem, cuja família foi deslocada por conta de conflitos tribais anteriores, escolheu perdoar e se aproximar de pessoas da outra tribo. Após, ela deu mais um passo, pediu perdão a alguns sobre seu antagonismo e por espalhar boatos. Agora, mais que nunca, elas vêem a relevância do que elas estão descobrindo e decidindo.

Criadoras de Paz, um programa de Iniciativas de Mudança, é uma rede de trabalho composta por mulheres, que nasceu da convicção de uma política da Tanzânia, Anna Abdallah Msekwa, que viu na abordagem básica de IM uma forma de animar mulheres comuns para assim serem parte da construção da paz na comunidade. Lançada em 1991, tem reunido mulheres de todo o mundo em conferências e agora também através de encontros conhecidos como ‘Círculos de Criadoras de Paz’.

Duas mulheres no Líbano, inspiradas por Criadoras de Paz (CoP), formou um movimento chamado ‘Linaltaki’, composto por mulheres shiitas e cristãs, onde se reúnem em meio às divisões religiosas, compartilhando experiências pessoais. Em Ruanda, Didacienne Mukahabeshimana e Mathilde Kayitesi, depois de voltar de uma conferência de CoP em Uganda, começaram o UMUHUZA, uma ONG com crítico trabalho na reabilitação pós-genocídio.

Círculos de Criadoras de Paz estão ativos em vários países. Pequenos grupos de mulheres compromissadas se reúnem regularmente por semanas e meses para trabalhar numa série de ‘pontos-chave’ focados na natureza da paz, no saber escutar, na paz interior, no perdão, etc. As reuniões são principalmente sobre mudanças em relacionamentos; entre famílias, entre comunidades.

Esses Círculos desafiam as mulheres a:

  • Compartilhar sua responsabilidade na perpetuação do conflito e no seu resultado.
  • Engajar na criação de paz em cada nível da sociedade.
  • Quebrar as correntes de ódio e revanche.
  • Construir redes de perdão e amizade em meio às divisões raciais, religiosas e sociais.
  • Em Sidney, Austrália, uma divisão tradicional é entre a sociedade estabelecida da Costa Norte (North Shore) e as novas áreas de imigração ao sul do porto. Nos últimos anos mais de 20 círculos de paz têm ocorrido por toda Sidney e esta é uma divisão que tem sido superada. Árabe é o segundo idioma mais falado em Sidney, e a comunidade libanesa é uma das maiores. Depois de fazer amizade com duas muçulmanas libanesas, Rosemary Thwaites, facilitadora do Círculo de Paz, as convidou para se encontrarem com outras mulheres nos prósperos e arborizados subúrbios da Costa Norte. O que foi profundamente compartilhado por semanas no Círculo acabou por criar uma ligação tal que as mulheres da Costa Norte se arriscaram a visitar o coração da comunidade libanesa no sul. Uma das libanesas falou publicamente da mudança que a experiência do Círculo de Paz trouxe para sua vida.

    Jane Mills, facilitadora australiana do Círculo de Paz, escreve sobre a ‘alta e bonita senhora de Ruanda’ no primeiro Círculo de Paz no qual ela participou. Em uma semana a senhora quis compartilhar uma experiência que teve na semana anterior.

    Ela foi chamada a Villawood (centro de detenção para exilados em Sidney) para traduzir para uma compatriota de Ruanda. Ela não reconheceu o nome da mulher, mas quando a viu, tinha certeza de que a conhecia. Voltando para casa, o nome real da mulher lhe veio à mente, daí ela ligou para o centro de detenção e perguntou à mulher: ‘Seu sobrenome é .................. ?’.

    Se a resposta fosse ‘sim’, então ela saberia que o pai daquela mulher foi o assassino de seu pai. ‘Sim, este é meu verdadeiro sobrenome’, respondeu a prisioneira, ‘mas meus parentes e eu mudamos nosso sobrenome porque meu pai matou tantas pessoas que nos sentimos envergonhados. Eu pensei que, se você soubesse meu nome real, nunca me ajudaria’. E nossa amiga nos contou que, com a força que conseguiu de nosso Círculo de Paz, foi capaz de dizer ‘eu vou ajudar você’.

    Rosemary Kariuki, do Quênia, agora trabalha nas relações entre polícia e refugiados em Sidney, está entusiasmada com os Círculos de Paz. Ela diz: ‘eles mudaram minha vida’. Depois de seu primeiro Círculo de Paz, organizou um jantar dançante com mulheres para incluir muitas refugiadas africanas que estavam nervosas sobre sair de suas casas neste novo e estranho país – 500 compareceram e o sucesso foi tanto que se tornou um evento anual.

    De forma crescente pelo mundo, as cidades são misturas maravilhosas de raças, culturas e religiões. Infelizmente, disse uma jovem refugiada do Sudão, trouxemos nossa guerra conosco. Parte do foco dos Círculos de Criadoras de Paz é identificar e lidar com algumas dessas feridas de dor e preconceito abertas e não-resolvidas que existem sob a superfície de tantas comunidades. Cada mulher também tem a chance de compartilhar sua estória de vida e os pontos de mudança significativos que a levou a ser quem é hoje.

    Isto significou transformação para uma mulher do Sul sudanês em Khartoum em 2007, quando uma equipe de Criadoras de Paz (CoP) foi oficialmente convidada a conduzir uma série de oficinas para acadêmicos, ativistas pela paz e políticos. Ela nunca sentou com uma mulher muçulmana do Norte. ‘Eu sempre pensei que éramos os únicos que haviam sofrido’, exclamou ela. Em Juba, uma ex-deputada federal de uma província do Sul superou sua amargura e voltou com a equipe de CoP a Khartoum depois de 18 anos. ‘Nós trabalhamos sobre a paz, mas não sobre a mudança’, disse. Educadores pela paz na oficina decidiram incorporar em seu próprio trabalho o papel da introspecção pessoal e a dimensão espiritual que os Círculos de Paz apresentam.

    Os Círculos de Criadoras de Paz estão também atuando na África do Sul, nos EUA, Reino Unido, Índia e Colômbia. Existem atualmente convites para apresentá-los a mais oitos países. Uma educadora de Darfur pediu que uma equipe de Criadoras de Paz voltasse ao Sudão para dar treinamento a mulheres de Darfur, como parte de seu trabalho para reabilitação de mulheres em campos de desabrigados. Uma ONG russa pediu ajuda com mulheres e crianças afetadas pelo conflito na Chechênia.

    A próxima conferência internacional de Criadoras de Paz ocorrerá em Sidney no final de 2009. Mais informações em Criadoras de Paz (em inglês).

    Secretária de Criadoras de Paz, Clementine Lue Clark (2ª í  esquerda), da Jamaica e dos EUA,  com Jean Brown (íºltima í  direita) e Criadoras de Paz no Sudí£o, junto ao Rio Nilo.

    Secretária de Criadoras de Paz, Clementine Lue Clark (2ª í  esquerda), da Jamaica e dos EUA, com Jean Brown (íºltima í  direita) e Criadoras de Paz no Sudí£o, junto ao Rio Nilo.

    Clementine Lue Clark, secretária de Criadoras de Paz na Jamaica e nos EUA, teve um curso sobre Coexistência e Conflito. Ela escreve:

    Minha convicção por CoP vem de um tempo em minha vida quando eu estava buscando ‘meu lugar’ como profissional neste mundo de agentes pela paz. Existem muitas opções, mas poucas preenchem as necessidades do coração e da cabeça da forma que faz CoP. O uso de minhas habilidades acadêmicas, minha experiência anterior com IM e o conhecimento do campo internacional da ação pela paz podem ser benéficos neste momento de desenvolvimento do programa CoP.

    Eu experimentei em primeira mão o impacto dos modelos dos Círculos de CoP no contexto Norte e Sul do Sudão. Tivemos agora um Círculo aqui em Boston. Com certeza é um modelo poderoso que pode ter impacto sobre as mulheres no Sudão e nos EUA.

    Faça o download dessa história completa (em inglês) em PDF

    Sobre IdeM

    Iniciativas de Mudança (IdeM) é um movimento mundial de pessoas de diversas culturas e origens, comprometidas com a transformação da sociedade através de mudanças nas motivações e comportamento humanos, começando com elas mesmas.

    Trabalhamos para inspirar, equipar e conectar pessoas a trabalharem pelas necessidades mundiais, começando por elas mesmas, nas áreas de construção de confiança, liderança ética e vida sustentável.