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FALAR A VERDADE, MAS DE QUEM? A SUA OU A MINHA?
Andrew Stallybrass
16 Abril 2007

Como podemos ajudar uns aos outros a valorizar a verdade? Como podemos construir confiança que é o melhor fertilizador para que a verdade cresça? Contando a verdade, com amor, o tanto que podemos, é o passo que devemos dar em direção às memórias feridas.

‘A verdade’ é um assunto espinhoso. A verdade de quem? A minha ou a sua? Mas talvez possamos esclarecer seu antônimo: mentiras e inverdades. Talvez verdade e mentira sejam estados menos absolutos do que uma luta permanente. ‘Os homens de vez em quando tropeçam com a verdade, mas a maioria deles se recompõe da queda e correm como se nada tivesse acontecido’, diz Sir Winston Churchill (a quem nunca faltou uma frase espirituosa).

Há dez anos atrás a Suíça, país pacífico onde vivemos, passou por um drama nacional quando abordou a história da 2ª Guerra Mundial. Muito difundido pela imprensa, um grupo de historiadores financiado pelo governo produziu um relatório sobre ‘as latentes contas bancárias’ dos judeus vítimas do nazismo, dos compromissos da época da guerra e as políticas do governo suíço. Recentemente, marcando o 10º aniversário do início do trabalho da comissão, Jean-François Bergier, o historiador-presidente, notou, frustrado, que seu relatório não teve o impacto esperado, não atingiu a forma de pensar e a política do país. Mas de maneira prestativa nos lembrou que essa pesquisa massiva e crítica do passado não foi uma questão para assinalar propriedades ou julgar nossos antepassados, e sim chamar a atenção para falar a verdade.

A verdade, claro, tem muitas facetas. Alguns das gerações mais antigas na Suíça, enfurecidos por esse exame do passado, se passaram por tolos dizendo que ninguém que não viveu naquele período tem qualquer direito de dizer algo sobre isso – o que significa que a maioria de nós nada poderia dizer sobre a 2º Guerra Mundial – e que ainda agora não poderíamos falar de eventos passados! Mas essas reações levaram à confecção de um arquivo áudio-visual, resgatando estórias de centenas de pessoas comuns – uma abordagem positiva, e uma ajuda real aos futuros historiadores.

Fico impressionado em como deve ser difícil para as nações quererem confrontar seu passado, desejando contar a verdade. Temos orgulho da liberdade em nossa democracia – incluindo a liberdade de informação e imprensa – mas existem ‘buracos negros na história’. O recente livro lançado pelo presidente de Iniciativas de Mudança Internacional, Mohamed Sahnoun, ‘Memórias Feridas’ (apenas publicado em francês até o momento) toca num buraco negro que começa a se dissolver: a guerra argelina e as relações da Argélia com a França. A Espanha está sofrendo com as memórias da guerra civil, com os filhos das vítimas esquecidas liderando a busca por túmulos coletivos escondidos. Entre o Japão e a China e outros inimigos da última guerra, na Turquia, em tantos lugares, o passado ainda é tão presente e, na maioria das vezes, tóxico.

É sempre mais fácil discernir os ‘buracos negros’ das outras pessoas e outras nações do que os nossos próprios. Tenho lido vários livros com histórias dolorosas – para mim – ultimamente. Uma foi a luta pelo fim do tráfico negreiro pelo Atlântico – uma grande história de milhares de pessoas comuns (ou não) se mobilizando para desfazer um grande erro.

Mas não devemos perder de vista este grande erro, que talvez marque o continente africano até hoje. E então no Quênia: Caroline Elkins, ‘Britain’s Gulag’ – O final brutal do Império do Quênia, e David Anderson, ‘Histórias do Enforcado’ – A guerra suja no Quênia e o fim do Império. Para minha vergonha, eu inconscientemente abracei a idéia que a Inglaterra tivesse feito tantas coisas terríveis aqui e lá, mas pelo menos não éramos tão maus como os franceses! Tendo lido esses livros, não estou tão certo. Mas de qualquer forma, não é questão de avaliar livros sobre a culpa das pessoas, mas sim de dizer a verdade.

Como podemos ajudar uns aos outros a valorizar a verdade? Como podemos construir confiança que é o melhor fertilizador para que a verdade cresça? São questões que estão no âmago de muitos programas de Iniciativas de Mudança e da sua história: Esperança nas Cidades, nos Estados Unidos e Inglaterra, ‘Iniciativas para o diálogo na França’... É um importante argumento no diálogo e aliança de civilizações que a ONU quer promover. A Bíblia diz: ‘Então você saberá a verdade, e a verdade o libertará’. Contando a verdade, com amor, o tanto que podemos, é o passo que devemos dar em direção às memórias feridas.


Andrew Stallybrass, escritor e publicitário britânico, vive em Geneva com sua esposa suíça.
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