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“LIDERANÇA É TUDO”
Mike Lowe
17 Outubro 2007

Kim Beazley foi aquele tipo raro – um político honesto que mereceu a admiração e a confiança de todos os políticos.

“Liderança é tudo” foi à manchete do jornal The Age, de Melbourne, de 15 de outubro. O primeiro Ministro da Austrália, John Howard, havia acabado de convocar eleições gerais argumentando que o país não precisa de novas ou antigas lideranças, ele simplesmente precisa da liderança “certa”. Ao mesmo tempo, o 17º Congresso do Partido Comunista havia apenas começado em Pequim, que irá escolher a 50ª geração de líderes da China Comunista. Em seu discurso de abertura, o Presidente Hu Jintao apontou a administração política como uma questão principal em uma época na qual muitos chineses estão frustrados pela corrupção e pela burocracia excessiva.

Kim Beazley
Kim Beazley
Estando as questões de liderança em foco, é comovente que os jornais na Inglaterra e na Austrália venham prestando tributo a Kim Beazley, um dos excepcionais políticos australianos que faleceu em 12 de outubro de 2007. Atualmente, políticos freqüentemente parecem estar reduzidos à ciência das relações públicas e às pesquisas de mercado, e a missão dos políticos parece ser a de identificar um mágico ”terreno neutro” e bravamente declarar “aqui eu me mantenho”. Como resultado, ao invés de lideranças temos seguidores. Beazley não foi esse tipo de político.

O primeiro ministro John Howard o descreveu como “um homem de grandes princípios” que foi “amparado por uma forte fé cristã”. “Sua conduta e comportamento tanto no Parlamento, nos despachos de suas responsabilidades, como quando Ministro, foi de um padrão elevado”. O líder da oposição (trabalhista) Kevin Rudd disse que o Sr. Beazley – pai do antigo líder da oposição Kim Beazley – foi um servo e um líder da mais alta ordem. Em uma declaração conjunta com o porta-voz da Educação, Stephen Smith, eles afirmaram que o Partido dos Trabalhadores havia “perdido um ícone” que havia “implementado algumas das mais significativas reformas educacionais da história australiana”. “Muitos de nós no Parlamento não estariam aqui se não fosse pelas contribuições de Kim”, eles afirmaram.

Com tributos como esses (e a promessa de um funeral de Estado), os não-autralianos talvez sejam perdoados por pensarem que Beazley era um ex-Primeiro Ministro. Ele não era. Beazley passou 28 de seus 32 anos no Parlamento no qual, uma vez desesperado, foi “a oposição permanente da Monarquia”. Um ano depois, australianos votaram que o governo de Gough Whitlam (Partido Trabalhista) deveria subir ao poder, e Beazley pronunciou-se em uma conferência na Índia: “Eu acredito que a verdadeira função da oposição é pensar além do governo no momento de seu sucesso. Somente então políticas alternativas podem ser estruturadas e o avanço social pode se estabelecer”. Praticamente três décadas na oposição mostrou a Beazley que “o questionamento da motivação é a chave para o avanço social... Se a sua motivação é o poder, você provavelmente deve distorcer a verdade. Se a sua motivação é a verdade, você vai ser adequado ao poder”.

Ele serviu como o Ministro da Educação pelo curto período entre 1972 e 1975. Muitas das mudanças que ele efetivou foram da sua época na oposição – tornadas possíveis porque ele foi conhecido como um homem de integridade, cujas motivações eram confiáveis para os políticos dos dois lados do Parlamento. Então, por exemplo, ele foi capaz de trabalhar com o Governador-Geral Sr. Paul Hasluck, caminhando em direção ao histórico referendo de 1967, no qual se reconhecia os aborígines pela primeira vez no censo australiano. Quando a Comunidade Britânica instalou um departamento para as demandas aborígines, o Primeiro Ministro Harold Holt pediu o conselho de Beazley. Mais tarde, como Ministro da Educação, Beazley instituiu mudanças permitindo os aborígines serem escolarizados em outras línguas – antes, as crianças indígenas eram reprimidas por falar qualquer outra língua que não fosse o inglês.

No início da luta pelos Direitos da Terra Aborígine, uma petição foi apresentada ao Parlamento. Escrita na língua Yolgnu Matha e traduzida para o inglês, a petição solicitava ao Parlamento que apontasse um Comitê Selecionado, “acompanhado por intérpretes competentes, para ouvir os pontos de vista do povo Yirrkala”. Da bancada oposicionista, Beazley apresentou a petição ao Parlamento, indicando que o Comitê Selecionado tinha que ser formado e acentuando que aquela “não era uma questão partidária... Isso não é uma questão do Governo estar em julgamento. Esse Parlamento está em julgamento”. Então algo raro na política australiana aconteceu: Paul Hasluck, o Ministro responsável, se ergueu e imediatamente aceitou a moção da oposição. “Eu vi isso acontecer apenas uma vez em 32 anos”, disse Beazley.

Anteriormente em sua carreira política, Beazley foi enviado ao Parlamento para comparecer a coroação da Rainha Elizabeth II, em 1953. Intrigado pelas idéias do Rearmamento Moral (como o Iniciativas de Mudança era então conhecido), ele decidiu passar uma semana no centro de IM em Caux, na Suíça, durante sua viagem de volta. Uma semana se transformou em sete. “Eu tenho que admitir que o que eu vi em Caux foi muito mais significativo para a paz e a sanidade do mundo do que qualquer coisa sendo feita naquela época na política australiana”, recordou mais tarde. Ele aceitou o desafio de um amigo do Partido Trabalhista Britânico para fazer a experiência de ficar um tempo sozinho para buscar a orientação de Deus, tendo “nada para provar, nada para justificar e nada para ganhar para si mesmo” (algo realmente subversivo para se dizer a um político, disse ele mais tarde).

A experiência se transformou em um hábito e em um princípio-guia, promovendo a sua convicção de que ele deveria fazer da reabilitação do povo aborígine algo central em sua vida pública. Anos mais tarde, quando ganhou o Doutorado Honorário pela Universidade Nacional Australiana, uma citação afirmava: “Se tornou popular nos últimos anos reconhecer as injustiças que foram feitas ao povo aborígine. Mas através da última metade de século, isso estava longe de ser popular. Naquela época, poucas pessoas haviam feito isso, e nenhuma havia feito mais que Kim Beazley fez para trazer uma mudança a essa atitude.”

Atualmente, muitos são cínicos sobre os políticos. O exemplo de Kim Beazley mostra que é possível haver políticos honestos e que uma pessoa de integridade pode ser mais eficiente na oposição do que muitos líderes menores que atingem o poder.


Mike Lowe é o editor do website global de Iniciativas de Mudança. Sua diversificada carreira incluiu lecionar inglês na Polônia, dirigir programas de treinamento para jovens líderes no Leste Europeu (www.f-4-f.org), trabalhar em hospitais psiquiátricos e desenvolver o programa 'Descubra o Outro'. No momento, vive em Melbourne, Austrália.
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