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UM DOS CONFLITOS MAIS ANTIGOS DO MUNDO
Mohamed Sahnoun
10 Dezembro 2007

Mohamed Sahnoun
							Mudança climática e segurança humana: Caims e Abels de hoje estão armados com Kalashnikovs.

Nos primeiros capítulos da Bíblia achamos uma das estórias mais antigas da humanidade, contada por muçulmanos, bem como por judeus e cristãos: dois irmãos, Caim, um agricultor, e Abel, um itinerante criador de animais. Uma estória de violência e morte. Num painel público há alguns anos encontrei Samuel Huntington e contestei sua tese sobre os inevitáveis conflitos de civilizações. Por muitos anos estive envolvido em ações de paz na Somália: um dos paises mais homogêneos na África, onde 85% são muçulmanos. Nem um somali pode falar de um nativo do Norte a um nativo do Sul.

Ainda jovens, levando suas cabras para um dique escasso ou local com água, perguntarão ao filho de outro criador sobre sua origem. Eles serão capazes de recitar sua árvore genealógica – por parte de pai – além das últimas 20 gerações, para saber se são primos, e assim podem compartilhar os poucos preciosos recursos, ou então acabarão por lutar por isso. E hoje em dia Caims e Abels estão armados com todas as Kalashnikovs facilmente disponíveis. Nos muitos anos em que estive envolvido em ações para resolução de conflitos na região do Chifre da África, vi áreas verdes desaparecerem e o deserto aumentar: 70% da cobertura florestal foi destruída. Mais que um ‘conflito de civilizações’, tantos conflitos mundiais – penso em Darfur – remetem ao conflito por recursos. Pelo menos em parte.

Esta é a importância da conferencia da ONU em Bali sobre a mudança climática. Não podemos apenas lidar – não por muito tempo – com os sintomas. A comunidade internacional deve focar as causas básicas da insegurança humana. É por isso que escolhemos este tema para as conferências de Caux em 2008 no centro internacional de Iniciativas de Mudança, na Suíça. Todos temos um papel nisso; somos todos interdependentes. Nenhum país pode progredir e desenvolver-se sozinho. Em países ricos da Europa existem forças políticas que querem construir muros e cercas para proteger seu conforto mantendo o sofrimento da humanidade a cargo das autoridades. Mas existe também um alerta crescente sobre o perigo da mudança climática, dessa competição por recursos, por todos nós, em qualquer lugar no qual vivamos. Os Alpes ainda estão se movendo, crescendo, e com as crescentes temperaturas e o derretimento do gelo, existem vales com estradas que estarão impraticáveis em poucas semanas, se as equipes de manutenção parassem seu constante trabalho.

Questões sobre o ‘meio ambiente’, da mesma forma, são interesse de uma minoria, como uma moda trivial. Dizemos no programa para as conferências de Caux : ‘A segurança humana não depende apenas do fim dos conflitos e do terrorismo. Também se refere às necessidades humanas básicas de moradia, alimentação e trabalho, saúde e educação – e um senso de auto-estima. Para milhões, essas necessidades estão longe de serem supridas. Num mundo de abundância, persistem a pobreza e a injustiça. A paz mundial e a segurança são também ameaçadas pela destruição do meio ambiente e da mudança climática.

Iniciativas de Mudança sempre apontou que, no coração da civilização, estão os valores centrais de honestidade e integridade, pureza de coração e motivação, altruísmo e coragem, amor por pessoas – e o perdão. Tais valores, vividos com inspiração renovada a cada momento de reflexão em silêncio, permite a cada um de nós fazer a diferença. Eles nos ajudam a encontrar as causas básicas da insegurança e sustentar a esperança pelo futuro’. Todos temos um papel na criação e sustentação do desejo político por um futuro viável, para todas as crianças da humanidade, para jovens Caims e Abels de hoje, e para suas irmãs.


Mohamed Sahnoun, Presidente de Iniciativas de Mudança Internacional, foi membro da Comissão Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecido como Comissão Brundtland.
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