“Como homem senti uma profunda vergonha... permitindo que essa violência e exclusão acontecessem em minha sociedade”.

Living Peace Conference Closing Day 2016

“Como homem senti uma profunda vergonha... permitindo que essa violência e exclusão acontecessem em minha sociedade”.

segunda-feira, 16. Janeiro 2017

Camilo Villa, da Colômbia, com sua esposa Luz Stella, desenvolveram uma iniciativa voluntária em março de 2014, de criar um espaço seguro para as mulheres que passaram a maior parte de suas vidas na prostituição. Camilo compartilhou na Conferência dos 25 anos de Criadores de Paz ‘Vivendo a Paz’’, em Caux, em 2016, na sessão ‘Contando uma Nova História’. Sua esposa, Luz Stella, é uma das coordenadoras internacionais dos Criadores de Paz.

Camilo Villa and Luz Stella Camacho

Camilo Villa e Luz Stella Camacho “Chamamos o espaço de ‘Academia de Belleza’ (Academia da Beleza). É uma iniciativa que visa criar um espaço seguro para as mulheres. Elas têm acima de 45 anos e estão à procura de novos caminhos para o futuro.

Costumávamos nos encontrar nas instalações de uma fundação católica dirigida por freiras da comunidade Buen Pastor. Combinamos dois elementos fundamentais em nossa abordagem:

Trabalho interno: curar suas feridas profundas e compreender melhor quem são, sua essência e beleza únicas.

Empreendedorismo: a busca para encontrar o projeto através do qual cada uma delas será capaz de brilhar, para ganhar a vida e para florescer. Para trazer beleza ao mundo.

Beleza interior e beleza exterior. É por isso que o nomeamos Academia de Beleza. Você não pode imaginar a quantidade de cura que tem ocorrido entre todos nós.

Essas mulheres eram muito velhas para esse negócio. Elas acabaram nesse caminho como resultado de um evento doloroso em suas vidas, raramente como uma decisão consciente ou planejada. A maioria delas tem filhos (muitas vezes de um pai desconhecido ou ausente), e algumas têm netos. Não é estranho que suas famílias não saibam sobre essa outra dimensão de suas vidas, a vergonha torna tudo isso muito difícil de compartilhar.

Em seus currículos, elas mal podem identificar habilidades e quase nenhuma experiência de trabalho. Portanto, para encontrar um trabalho formal e estável é quase impossível. Além de seu modo de vida altamente vulnerável, o que é mais difícil e desafiador para elas é apoderarem-se, confiarem em si mesmas, nas pessoas e nas instituições ao redor.

Elas passaram por tantas frustrações, traições, abusos, violências e outras experiências desagradáveis que confiar em sua própria beleza, e, claro, nos outros, é um enorme obstáculo. O principal desafio não é identificar um possível empreendimento à frente, mas ter a vontade de encará-lo com confiança.

O distrito vermelho em Bogotá está localizado próximo a uma avenida principal. Ao passar por lá é possível ver as mulheres que ficam na entrada de estranhas casas, bares, clubes e hotéis. O comportamento delas é semelhante ao de qualquer outra cidade, vestindo roupas extremamente sexy, andando de maneira provocativa, com maquiagem intensa, todos os truques para atrair a atenção de qualquer possível cliente.

Como em inglês, quando queremos insultar alguém, chamamos de filho da puta. Quando uma mulher vai facilmente para a cama com qualquer homem ela é rotulada de cadela. Elas são considerados uma ameaça aos casamentos, são rotuladas como portadoras de doenças e seus valores morais são questionáveis. Em outras palavras, a sociedade lhes confere uma posição bastante baixa na escala social.

Quando começamos esse trabalho essa era também a minha forma de pensar. O desafio foi uma jornada a um mundo desconhecido. Mas escutá-las e testemunhar a humanidade nelas foi uma experiência muito chocante. Fiquei profundamente comovido com suas histórias de vida e, mais especialmente, por sua bondade e vulnerabilidade. O contato com elas, suas histórias, seus medos e suas dificuldades de sonhar foram como uma flecha acertando diretamente no meu coração. Isso me levou a entender suas histórias de uma perspectiva diferente. Muitas questões começaram a surgir:

  • Por que elas são rotuladas como mulheres más, quando na verdade são elas que sofrem as piores consequências e impactos?
  • Por que é que os homens, aqueles que pagam por esse momento de prazer, não são discriminados?
  • Por que permitimos que a sexualidade se torne uma mercadoria?
  • Por que excluímos e marginalizamos essas mulheres?

Foi difícil.

Também me fez pensar sobre os homens que utilizam os seus serviços. Deve haver uma profunda solidão e vazio nesses corações para quererem pagar alguém para ter relações sexuais com eles.

Esses encontros são encontros de almas perdidas, completamente desconectadas de seus corpos, cada uma tentando escapar de uma realidade particular; aqueles poucos minutos de prazer, como uma pílula para escapar de seus próprios dramas.

Como homem, senti uma profunda vergonha. Me senti culpado por permitir que essa violência e exclusão acontecessem em minha sociedade. Nunca paguei alguém para estar comigo, mas joguei o jogo da sedução de uma maneira ou de outra. Agora eu entendo que sempre que há sexo sem amor, de alguma forma, há uma forma de prostituição para ambos, o homem e a mulher. E eu fiz isso. Eu também apontei meu dedo para essas mulheres andando pelas ruas de Bogotá, ou Bruxelas ou Amsterdã ou... E eu insultei pessoas, rotulando-as da pior maneira.

Senti-me envergonhado de mim mesmo.

Então fiz o que aprendi a fazer ao caminhar com vocês, o belo povo de IdeM: pedi perdão. Em um Círculo de Conversa, disse a essas mulheres como me senti mal por tê-las julgado, o quão ruim me senti ao apontar o dedo sem primeiro perguntar e entender e, acima de tudo, por não ter honrado a sexualidade como o encontro sagrado que deveria ser . Pedi-lhes que me perdoassem e fiz isso em meu nome e em nome de todos os homens que as tinham ferido de qualquer maneira. Eu me comprometi a trabalhar de todas as formas possíveis para equilibrar o masculino e o feminino em nossa cultura, honrar as mulheres e apoiar os homens na cura e na reconciliação.

E assim eu faço hoje. Falo com vocês, mulheres Criadoras de Paz, as Artesãs da Paz:

Em meu nome e em nome de todos os homens, peço-lhes que perdoem o meu caminho cego, a minha falta de ternura, as minhas emoções violentas, a minha incapacidade de honrar e aceitar os ciclos de vocês. E eu confirmo aqui, tendo vocês como minhas testemunhas, o meu compromisso de trabalhar pelo equilíbrio entre o feminino e o masculino no planeta, de tal forma que Deus e a Mãe Terra sejam honrados em cada um de meus atos.

Ao longo desta jornada, a beleza inspiradora da minha amada esposa tem sido um presente precioso que a vida colocou em meu caminho. A partir de Janeiro de 2017, farei parte do Conselho Internacional de IdeM. Esta é a mensagem central que eu trago. É a mensagem da América, você sabe, um grande e belo continente que vai do Alasca à Patagônia, que os antepassados dessa terra mantiveram vivos para nós. Estes são ensinamentos sobre viver em equilíbrio com a natureza, honrar a Deus, ou Espírito Santo, e viver nossas vidas a partir do coração, com paixão, no amor.

Tradução por Paulo Zanol