‘Dark Girls’ em Toronto: Reflexões de uma Coordenadora Regional de IdeM Canada

‘Dark Girls’ em Toronto: Reflexões de uma Coordenadora Regional de IdeM Canada

segunda-feira, 27. Fevereiro 2017
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‘Dark Girls’ em Toronto: Reflexões de uma Coordenadora Regional de IdeM Canada

Mercy Okalowe

Em 2011, Mercy Okalowe estava trabalhando como Coordenadora Regional para Iniciativas de Mudança no Canadá. Como parte de seu trabalho para construir a confiança em sua comunidade e envolver os moradores em conversas honestas sobre raça, reconciliação e responsabilidade, Mercy participou do lançamento mundial do filme documentário Dark Girls (Meninas Negras). Ela escreve aqui um reflexão de sua experiência e um apelo à ação por todas as “meninas negras”.

No dia 14 de setembro de 2011, participei do lançamento mundial do documentário Dark Girls no Festival International de Filmes de Toronto (TIFF). O diretor e o produtor do filme estavam lá para responder a perguntas depois da exibição, assim, uma grande e animada audiência estava presente. A plateia lindamente diversificada estava cheia de expectativa quando Cameron Bailey (diretor artístico da TIFF) apresentou o filme. Dark Girls é um documentário que procura explicar o trauma e desmantelar a discriminação sofrida por mulheres que têm um tom de pele “mais escuro do que um saco de papel marrom”. Sim, houve um tempo em nossa história em que era aceitável comparar o tom de pele de uma pessoa a um saco de papel marrom. Se seu tom de pele fosse mais claro do que o saco, você era considerado bonito, digno e você tinha acesso a certos recursos que de outra forma teriam sido negados. Se seu tom de pele fosse mais escuro do que o saco você era essencialmente considerado um ser humano inferior. Felizmente, não usamos mais abertamente e descaradamente esses tipos de critérios ou “testes” para determinar a beleza e dignidade, no entanto, o “colorismo” ou “sombreamento” da horrível prática do “saco de papel” ainda está um pouco presente em nossas comunidades – isso é o que o filme pretende apontar e, finalmente, resolver.

Dark Girls é um documentário poderoso que consegue criar um espaço muito necessário para mulheres de diferentes tonalidades de pele se unirem e compartilharem abertamente tudo o que sofreram como “garotas escuras”. Ouvimos crianças, adolescentes e adultos. Ouvimos mulheres e homens. Ouvimos americanos e não-americanos. A questão – como descobri poucos meses antes de assistir ao filme – se estende por gerações e gêneros, mantendo ao mesmo tempo implicações globais.

Quatro meses antes da exibição de Dark Girls, completei o Treinamento em Facilitador de Construção de Confiança oferecido pela equipe ‘Esperança nas Cidades’ de Richmond, Virgínia. Durante esse treinamento tive várias conversas privadas com uma das líderes femininas da comunidade sul-sudanesa de Calgary. Ela compartilhou histórias de sua dor e frustração com o que ela estava testemunhando entre as mulheres em sua comunidade. Algumas das mulheres jovens tentavam branquear sua pele com cremes e loções “clareadoras de pele”. Para minha consternação, essa prática de descoloração da pele não é nada nova. Podem vir à mente de algumas pessoas o falecido ícone pop Michael Jackson e suas batalhas públicas com a auto-imagem. Ele passou de um rapaz relativamente ‘de pele escura’ quando era membro do grupo Jackson 5 para um homem estranhamente pálido no momento de seu falecimento em 2009. Mas o clareamento da pele não é um ajuste cosmético procurado apenas por ricos e famosos. Em Dark Girls, os cineastas compartilharam as histórias de muitas mulheres não famosas de uma variedade de países, incluindo Etiópia, Coreia e Cuba, que se esforçavam para clarear sua pele. As questões de “colorismo” ou “sombreamento” e clareamento da pele parecem ser um fenômeno global.

Dark Girls começa com um olhar sobre a história dos africanos na América, iniciando-se com a sua escravidão após o tráfico transatlântico de escravos. Em seguida, passa para a era da pós-escravização, que termina em 1964 e, finalmente, discute as décadas da luta por Direitos Civis de 1965 até o presente. Quando consideramos o tratamento histórico e atual às pessoas de pele escura, é realmente um “fenômeno” que as meninas de tom mais escuro sejam suscetíveis a níveis mais baixos de auto-estima? Sob as circunstâncias, é realmente um “fenômeno” que essas meninas sejam compelidas a comprar e aplicar perigosas loções causadoras de câncer em seu rosto, braços, pernas e torso – tudo em um esforço para aliviar a pele que lhes parece ser mais uma maldição do que uma bênção? Acho que o verdadeiro fenômeno pode ser a força e a resistência demonstradas por aquelas meninas e mulheres que, apesar de serem vistas como seres humanos inferiores, são capazes de realizar grandes coisas, inclusive tornando-se Primeira-Dama dos Estados Unidos da América. Parabéns, Michelle Obama!

Dark Girls conclui com uma investigação sobre o que é necessário para trazer cura profunda para a vida de mulheres de pele escura e meninas que representam o futuro de nossas comunidades. Curar as feridas da história tem sido um componente importante do trabalho de IdeM e, por meio do meu próprio engajamento com essa rede de dedicados agentes de mudança, eu mesma encontrei a força para curar muitas de minhas próprias feridas pessoais. Avançando, espero que qualquer garota de pele escura que esteja lendo isto se levante, vá até um espelho, olhe nos olhos e diga: ‘Você é muito linda, e você é digna do maior amor.'

Mercy Okalowe vive em Toronto e é fundadora da B Better Communications. Ela é aluna da Western University (anteriormente Universidade Western Ontario) e Seneca College of Applied Arts and Technology. Quando não está trabalhando, ela geralmente pode ser encontrada se exercitando ou assistindo tênis.

Para obter mais informações sobre os efeitos sociais do tom de pele, você pode assistir ao filme Dark Girls ou ao filme da Canadian Broadcasting Corporation em 2016, Real Talk on Race: Colourism and the Discrimination from Within.

NOTA: Indivíduos de muitas culturas, nacionalidades, religiões e crenças estão ativamente envolvidos com Iniciativas de Mudança. Estes comentários representam as opiniões da escritora e não necessariamente as de Iniciativas de Mudança como um todo.

Tradução por Paulo Zanol