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Encontro com Vladimir Bukovsky: pensando no futuro da Ucrânia e Rússia

segunda-feira, 16. Janeiro 2012

Como parte do projeto “Curando o Passado”, Olga Hudz-Sakuma (Ucrânia), Lena Kashkarova (Ucrânia) e Diana Damsa (Romênia) visitaram um representante do movimento de dissidentes soviéticos, Vladimir Bukovsky, em sua casa em Cambridge. O passado e o futuro da Ucrânia e da Rússia, a importância do perdão e reconciliação na sociedade dos dias atuais e a interação entre responsabilidade pessoal e civil são alguns dos tópicos discutidos com Vladimir Bukovsky. Reporte por Lena Kashkarova.

Vladimir Bukovsky (nascido em 30 de Dezembro de 1942) é membro líder do movimento dos dissidentes russos dos anos 1960 e 70, além de escritor, neurofisiologista e ativista político. Bukovsky foi um dos primeiros a expor o uso do aprisionamento psiquiátrico contra prisioneiros políticos na União Soviética. Ele passou um total de 12 anos em prisões soviéticas, campos de trabalho e hospitais de tratamento psiquiátrico forçado usado pelo governo como prisões especiais.

Lena Kashkarova, Olga Hudz-Sakuma, Vladimir Bukovsky e Diana Damsa, Cambridge, 2011

Em Dezembro de 1976, no 11º ano dessas atividades, Bukovsky foi trocado pelo governo soviético pelo líder comunista chileno Luis Corvalán, também aprisionado. Ele buscou refúgio na Grã-Bretanha, onde depois saiu de Londres para Cambridge para estudar. No seu livro autobiográfico “To Build a Castle” (Construir um Castelo), Bukovsky descreve como ele chegou à Suíça. Esta biografia está disponível em vários sites (wikipedia).

Vladimir Bukovsky para alguns é a história personificada. Ele teve uma parte na história e ao mesmo tempo experimentou as realidades da União Soviética com todas as suas atrocidades. Olga Hudz-Sakuma, Diana Damsa e Lena Kashkarova o visitaram em sua casa em Cabridge como parte do programa “Curando o Passado”.

Patrick Colquhoun fez esse encontro acontecer. Ele é voluntário de Iniciativas de Mudança em tempo integral desde 1961. Anos antes ele tornou-se interessado no movimento de dissidentes da USSR e fez um filme “One Word of Truth” (Uma Palavra de Verdade), baseado no discurso do Prêmio Nobel de Solzhenitsyn; depois tornou-se amigo de Aleksandr Solzhenitsyn, Vladimir Bukovsky e muitos outros dissidentes.

Tivemos uma longa conversa sobre o passado e o futuro com Vladimir Bukovsky. Foi sobre a Ucrânia, a Rússia e outros países do antigo bloco comunista. Perguntamos a Vladimir sobre sua opinião do projeto “Curando o Passado” e o trabalho do programa IdeM “Bases para a Liberdade” em geral. Queríamos saber nomes e detalhes de contato de pessoas que estivessem interessadas no projeto e nos ajudassem. Por brincadeira, dissemos que, como a KGB, queríamos conhecer as pessoas “envolvidas”. No entanto, ao contrário desta instituição “maravilhosa”, Vladimir Bukovsky respondeu nossas perguntas de forma sincera e com boa vontade :)

A conversa começou com uma nota bastante surpreendente. Sobre nossa pergunta de qual trabalho seria mais urgente e necessário a ser feito na Rússia, ele respondeu que nada poderia ser feito. Nossas faces refletiram nossa surpresa e ele continuou: “A Rússia perdeu todas as suas chances. Não vejo como e quais coisas podem ser melhoradas. Em minha opinião, a divisão é a única opção à frente para nós”.

Apesar dessa declaração durante nossa conversa, descobrimos que ele achava que a ideia do livro “Sorry Book” (Livro do Perdão) iniciada por nossos amigos russos pudesse ser útil, assim como o trabalho de elevação de consciência, mostrando filmes e fornecendo informações confiáveis sobre o nosso passado soviético. Ele também concordou que pessoas que viveram atrocidades horríveis deveriam ter a chance de falar de sua dor e serem ouvidas. Além disso, em sua opinião, em cada pessoa existe o desejo por perdão e reconciliação. É por isso que antigos inimigos querem e precisam ouvir uns aos outros. Nossa tarefa deve ser ajudá-los, facilitar o processo.

À minha questão de qual a diferença entre a situação na União Soviética, quando ele lutou contra o regime comunista e a situação da Rússia hoje, Vladimir Bukovsky respondeu: “o colapso da União Soviética era inevitável. Era um sistema totalmente construído sobre mentiras. E foi muita tolice na elite dominante clamar seus direitos de ‘verdade absoluta’. Qualquer palavra de verdade real ia direto ao ponto que destruía o regime. Hoje muito pouco é proibido. Mas a verdade se perde na enorme corrente de informação, muitas vezes na onda de mentiras e falta de senso”. “Durante a era da USSR”, ele continuou, “a questão não era tanto se iríamos ser presos ou não. Isso estava definido. Eles tinham tanto medo da verdade que seríamos presos de qualquer forma. Mas era importante saber em que condições. Usamos a declaração final no Tribunal de Justiça para falar a todo o país. Por algum milagre sempre houve pessoas “abertas” a ouvir e escrever os discursos e através do Samizdat passar aos compatriotas”.

Olga Hudz estava interessada na conexão de Vladimir Bukovsky com a Ucrânia, sua opinião sobre a atual situação e suas expectativas para o futuro. O ex-dissidente respondeu sinceramente que não conhecia bem o suficiente as realidades, e por isso era difícil para ele julgar. Ao contrário, ele contou-nos sobre sua visita a Ucrânia quando sua independência foi reconhecida: “Como um ‘bom moskal’ fui convidado para falar em frente ao nosso Rada (parlamento ucraniano) se a Ucrânia deveria ter sua independência. Fui, vi que a metade dos parlamentares do Rada era bem conhecida a mim de prisões e campos de trabalho, e falei. Depois de mim falou George Bush sobre a ideia da independência. Mas eu que fui ouvido”.

Ele também compartilhou seus pensamentos sobre erros do governo ucraniano: “Foi um passo errado dos líderes em impor a língua ucraniana à população. É preciso atrair, mostrar toda a riqueza e beleza de uma língua e cultura ao invés de forçar seu uso. A imposição de métodos contrariou muitas pessoas e não permitiu que sua população ganhasse unidade”.

Vladimir Bukovsky é constantemente acusado de ser irreconciliável e ressentido. Ele explica: “Como posso perdoar, quando ninguém mostra o mínimo de arrependimento? Houve apenas um caso em minha vida quando um jornalista pediu perdão porque escreveu muita sujeira sobre mim durante os tempos soviéticos. E ele fez isso duas vezes – primeiro privativamente e então, na mesma noite – publicamente. Senti-me desconfortável. Mas pensei que foi um passo bastante corajoso”.

Uma filha de Stalin Svetlana Allilueva, de acordo com Vladimir Bukovsky, era bem consciente da importância de admitir erros: “Vladimir Maximov me disse uma vez um tipo de anedota: ‘A filha de Stalin me chamou e me repreendeu para não criticar tanto seu pai em meu livro’”.

A maior revelação para mim foi essa citação de Vladimir Bukovsky do livro “To Build a Castle”: “Não houve líderes ou liderados, não houve alocação de regras, e ninguém foi ativamente empurrado ou persuadido. Mas apesar da completa ausência de formas organizacionais, as atividades da comunidade protestante foram surpreendentemente bem coordenadas. De fora, era difícil ver como isso aconteceu. A KGB, mais antigos, usou o tempo para buscar líderes e planos, esconderijos secretos e endereços, mas cada vez que eles prendiam um suposto ‘líder’, surpreendentemente descobriam que não enfraqueciam o movimento mas muitas vezes até o fortaleciam... cada um de nós, como uma célula nervosa, participávamos desta orquestra sem maestro, estimulados apenas por uma consciência de nossa própria dignidade e um senso de responsabilidade pessoal pelo que acontecia em torno de nós”.

Por essa descrição, o movimento dissidente foi a comunidade real. A esta comunidade, que consistia de um punhado de pessoas, sustentou e ganhou a batalha com a grande máquina do regime soviético. Ele mesmo experimentou e mostrou em seu livro a incrível interconexão entre responsabilidade pessoal e independência excepcional por estar de pé pela dignidade de uma pessoa e extraordinária coesão de suas ações e apoio mútuo. Somente “separados” poderiam trabalhar juntos. Somente “juntos” poderiam se sustentar separadamente...

Este estranho fenômeno é o que, em minha opinião, tentamos criar com o trabalho de “Bases para Liberdade”. Ajudar as pessoas a trazer um senso de responsabilidade pessoal e criar uma comunidade daqueles que estão prontos a seguir o que esta “responsabilidade” tem a lhes dizer. É uma grande tarefa. Mas que efeito pode ter!