O Mais Recente Produto Tipo Exportação da Nigéria: Paz

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segunda-feira, 5. Janeiro 2009

Um imame muçulmano e um pastor cristão: ex-inimigos, agora agentes de mudança internacionalmente famosos. Dois nigerianos têm levado sua mensagem de esperança ao redor do mundo. Mike Lowe relata.

Imame Ashafa e Pastor Wuye (Foto: Alan Channer)No subúrbio de Melbourne um jovem espera pacientemente numa fila para falar com o imame Ashafa. A multidão neste moderno salão já havia em grande parte se dissipado, mas ainda havia ao redor dos principais oradores – um imame e um pastor da Nigéria – muitos reunidos, tentando alguma palavra deles. Finalmente, depois de cerca de meia hora, o jovem tem sua chance de dizer ao imame que ele odiava muito 'sua gente' – os muçulmanos. 'Fiz muitas coisas [ao seu povo]. Você mudou meu mundo hoje. Por favor me perdoe'.

A Nigéria é o maior país da África, com uma população de 140 milhões. É um entre alguns dos países africanos onde cristãos e muçulmanos vivem lado-a-lado. O Imame Muhammad Ashafa e o Pastor James Wuye começaram seu atual trabalho há 14 anos, depois de liderarem milícias rivais em conflitos entre cristãos e muçulmanos onde muitos milhares foram mortos. Na luta, o mentor espiritual do imame e dois de seus primos foram mortos. O pastor perdeu sua mão direita. Agora falam que o verdadeiro muçulmano perdoa e que o cristão não pode pregar o ressentimento.

Seu trabalho chamou a atenção de FLT films de IM em Londres. O documentário resultante O Imame e o Pastor, conta a história de suas marcantes mudanças, de declarados inimigos à parceiros na criação e direção do Centro de Mediação Inter-Religiosa Cristão-Muçulmano, em Kaduna, norte da Nigéria, que tem ajudado na preservação de muitas vidas. Seu modelo para uma harmonia religiosa foi adotado pelo governo nigeriano.

O Imame e o Pastor foi lançado em Dezembro de 2006 na sede da ONU em Nova Iorque, na sede do parlamento da Grã-Bretanha e no próprio Centro de Conferências Internacionais da Nigéria. O filme ganhou seu primeiro prêmio (categoria de pequenos documentários) no Festival Mundial de Documentários da África em St. Louis, Missouri.

O ano de 2008 foi marcante para esses protagonistas, levando seu filme e sua mensagem pelo mundo. Complementando seu contínuo trabalho de mediação na Nigéria, eles foram duas vezes convidados a ajudar na Província Rift Valley, no Quênia, com o trabalho de construção de confiança entre tribos envolvidas em violência pós-eleições no início do ano. Graças ao apoio do Instituto da Paz dos EUA, este trabalho foi filmado para produção de um documentário com foco específico em sua metodologia de estabelecimento de paz.

Em Janeiro, os dois homens viajaram para o leste do Canadá para estar com diversas comunidades étnicas em 7 cidades. Seu exemplo inspirou o Imame Syed Soharwardy, de Calgary, a realizar uma 'caminhada pela paz' durante 6 meses pelo Canadá recrutando muçulmanos e cristãos para um 'jihad' (esforço) contra a violência. Soharwardy contou aos repórteres que se inspirou no filme porque ele retratou 'dois líderes religiosos que continuariam a manter sua crença como sua única, ao mesmo tempo em que estavam comprometidos a prevenir a violência contra outras lideranças religiosas'.

Poucas semanas depois os dois homens retornaram brevemente, atendendo ao pedido do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (DFAIT) do Canadá para uma apresentação do filme ali e para outros departamentos e representantes de ONGs. Apresentando os dois, David Angell, Diretor Geral do Departamento Africano e ex-Alto Comissário da Nigéria, disse que dentre aqueles que têm trabalhado pela mudança, o imame e o pastor 'não estão apenas entre os mais inspiradores, mas entre os mais efetivos'.

Em Abril e Maio houve as estréias das versões em francês e alemão do filme em Genebra e Berlim, seguidas de uma estréia francesa no Salão Internacional para Iniciativas de Paz em Vilette, Paris. Os dois maiores jornais de circulação na língua francesa na Suíça tiveram seus maiores artigos com 'O imame e o pastor: dois líderes de guerra convertidos em perdão'. O filme foi depois exibido na televisão suíça, em alemão e italiano. Também foi exibido na TV sueca.

Em Outubro os dois homens voltaram a Genebra, e depois a Paris, para exibição do filme no Cinéma Verité, a celebração mais prestigiada no mundo de filmes com ênfase em causas humanitárias e sociais. Entre os convidados estava a rainha da Jordânia, além de Nobel Laureate Wangari Maathai, o Presidente de IM Internacional Mohamed Sahnoun, Bob Geldof e Meg Ryan.

Algumas semanas depois os nigerianos dirigiram-se à Austrália para um tour de 3 semanas por 4 capitais e a capital federal, acompanhados por Iniciativas de Mudança. Entrevistando eles no programa popular Late Night Live da ABC, o experiente radialista Phillip Adams declarou 'Estou conversando com duas pessoas que estão, claramente, entre as mais importantes do mundo neste confuso momento da história'.

Em Melbourne, sua visita teve o apoio do Conselho Islâmico de Victoria, o Conselho Victoriano de Igrejas e a Comissão Victoriana Multicultural, ajudando na disseminação de sua mensagem a cristão e muçulmanos.

Em Brisbane, alguns vieram munidos com a sagrada escritura para tentar encontrar alguma falha no trabalho entre cristãos e muçulmanos. 'Nós não concordamos em tudo em termos de crença e valores', eles responderam, mas somos filhos de Abraão e filhos de Adão e temos que cuidar uns dos outros como seres-humanos... Não é compromisso. É a criação de um espaço para o outro'.

O Imame Ashafa explica: 'O Alcorão ensina que o Islã inclui e reconhece outras religiões. Todos que acreditam em Deus tem seu prêmio. Líderes religiosos mal-intencionados, com a ajuda da interferência política, têm conduzido as pessoas a seguirem o ódio e confundido os ensinamentos'.

Pastor Wuye responde: 'A Bíblia diz para estarmos em paz com todos os homens e o Altíssimo, sem isso não podemos ver Deus. Quando Ashafa buscou mostrar respeito e compaixão e buscou o perdão, eu estava confuso e emocionado: 'Como eu poderia perdoar meu inimigo que matou meus compatriotas e me fez perder minha mão direita na batalha?'. Assim como seu Profeta o levou ao perdão, assim Jesus me desafiou'.

Ashafa reconhece que têm sido difícil. 'Ficamos sob suspeita em algumas partes de nossas comunidades. O maior inimigo que temos que superar é a ignorância'.

Em Canberra, os dois nigerianos foram oradores especiais no seminário para 200 pessoas seguindo a 22ª Prece Matinal Anual na sede do Parlamento. Nunca antes um muçulmano teve uma parte tão importante neste evento. Quando perguntados sobre o que cada um teve que se comprometer para trabalharem juntos, ambos responderam com um enfático 'absolutamente nada' que levou a aplausos espontâneos.

Da Austrália viajaram para o Chipre onde fizeram parte de um painel na 'Oração Mundial para a Paz', com apoio da Comunidade Católica St. Egidio e a Igreja Ortodoxa do Chipre. Neste pequeno país, tragicamente dividido entre as comunidades greco-cristãs e turco-muçulmanas, sua experiência foi especialmente relevante.

Relações comunitárias em algumas partes da Nigéria permanecem tensas. O Centro de Mediação Inter-Religiosa está em constante guarda para enviar forças-tarefa de imames e pastores, treinados por Ashafa e Wuye, para lidarem com conflitos étnicos e religiosos em qualquer lugar do país.

A incontestável mensagem do imame e o pastor é de que a coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos é possível na Nigéria e em todo o mundo.