O que a pandemia nos ensina sobre o nosso passado e nosso futuro?

O que a pandemia nos ensina sobre o nosso passado e nosso futuro?

quinta-feira, 7. Janeiro 2021
Author: 

 

É Natal, uma temporada que, para grande parte da população mundial, remete a um momento de confraternização e reflexões sobre o ano. Enquanto escrevo e penso em algumas questões, me ponho a pensar no sacrifício pessoal que tantas pessoas estão fazendo em, após meses de confinamento e desarranjos emocionais para poder seguir em frente, continuar isoladas para proteger a si, as pessoas que ama e manter o sentido de solidariedade coletiva pelo bem comum.

Falando desde o Brasil, o que observamos infelizmente é uma atitude ainda muito auto centrada para o atendimento às próprias necessidades - um senso individualista nutrido pela precariedade material e, principalmente, moral. Um país com uma história complexa, multicultural e com lacunas cegas que talvez possam nos ajudar a entender o momento.

Num ano onde os movimentos antirracistas ganharam vigor e, podemos dizer, foram decisivos para a virada das eleições dos EUA, podemos dizer que ainda estamos longe de reconhecer os erros históricos com resultados no presente da sociedade brasileira. Aqui, o último império a abolir a escravidão não fez mais que converter as velhas formas de submissão em modelos contemporâneos de segregação socioespacial. A cor da pele ainda é um grave fator de decisão sobre o caráter e validade de uma pessoa em muitos processos, significando a perpetuação da pobreza e do desamparo de uma geração que nasce sem oportunidades; que dispara em desvantagem e precisa se fazer superior para ser, talvez um dia, igual.

O webinar “Colonialismo: como a história nos afeta?” trouxe uma breve exposição de fatores originários e decorrentes do processo da escravidão no mundo. Possivelmente concordamos que o fenômeno da força colonialista do século XV mudou o mundo para sempre, e os combustíveis para isso, além do avanço tecnológico, se pautava em novos posicionamentos políticos, dogmas religiosos, desejos econômicos e a instituição da questão da raça como elemento central para possibilitar o avanço sem precedentes do capitalismo. A pessoa negra foi intitulada como sem valor e passível de dominação para ser a força de exploração das novas terras pelos invasores europeus. Após a abolição dos escravos em 1888, nos iludimos com o fim da escravidão através de um discurso de igualdade tão bem construído que passamos todo o Século XX, no Brasil, afirmando com orgulho que aqui 'não temos racismo'. Forçou-se, sem reparos, debates ou ações inclusivas, a pacificação entre brancos e negros para que nos entendêssemos 'irmãos' e naturalizássemos os fatores de desigualdade social. 

Os esforços posteriores de embranquecimento social através do favorecimento da vinda de imigrantes europeus para ocuparem labores remunerados e, finalmente, manterem a paisagem próspera europeia no Brasil através da cor da pele, da arquitetura, da cultura e da religião. Pelas décadas seguintes, o fato de pessoas pretas concentrarem-se em áreas pobres e serem estatística dominante entre os assassinatos cometidos pela polícia brasileira está baseada numa sociedade que ainda tem necessidade de subserviência. Em outras palavras, o estigma do senhor branco e do escravo negro se modernizou para novas relações de dependência e subjugamento na forma de subemprego, pobreza, falta de acesso à educação, aos serviços de saúde, moradia e vida decente.

No Brasil de 2020, enfrentamos o retrocesso de muitas políticas afirmativas em favor da multiculturalidade brasileira enriquecida pelos valores africanos que povoaram nossa terra, da igualdade de gênero, do direito à vida, ao casamento e à adoção de filhos por homossexuais e casais homoafetivos. Acumulamos aproximadamente 20 anos importantes na construção de instituições, políticas públicas, leis e organizações coletivas que lutam pelo reconhecimento e reparo dos erros históricos. Parece, no entanto, que o sistema constituído para manutenção da desigualdade passou a se ver ameaçada e uma força conservadora extrema emergiu após um golpe de Estado em 2016, destituindo uma presidente democraticamente eleita. O que parecia um grave evento pontual foi seguido do desmonte de uma série de conquistas iniciais, culminando na eleição do facismo à brasileira - o que virá a se denominar bolsonarismo, que concentra os valores da supremacia patriarcal branca. São inúmeras as declarações, em apenas 2 anos de mandato, do chefe de Estado sobre seu desprezo às reservas naturais, à diversidade humana, aos valores multiculturais e, inclusive, afirmou claramente que não se ressente de nada em relação à escravidão, negando haver racismo no Brasil. Ainda, coloca os valores de sua religião na frente de outras ou de qualquer conhecimento científico, além de apoiar a conversão de escolas públicas em militares e fazer apologia clara à violência e ao armamento de civis. Estamos desamparados e apoiando-nos entre nós mesmos, apesar de ainda haver considerável parte da população que apoia a ele e seus discursos.

O que nos interessa em tudo isso? 200 mil mortos pela Covid-19 no Brasil. É uma coincidência que nossas políticas internas tenham sido fracas para fornecer garantias de proteção física e econômica? É uma coincidência que a população negra e pobre esteja mais vulnerável e preencha majoritariamente as estatísticas de morte por Covid? É uma coincidência que a sociedade, de forma geral, revele confusão e descrença na ciência e nos indicadores científicos? É coincidência a política de atraso na construção de um plano de imunização e aquisição de vacinas em nível nacional quando a maioria das pessoas que morrem já não é economicamente ativa? Finalmente, é coincidência estarmos atravessando um momento crítico no Brasil com a população expondo-se ao perigo, na certeza de que não serão atingidos, mesmo sendo? O que aconteceu conosco e com nosso senso de realidade?

O que temos é um efeito sem precedentes de uma política segregacionista e negacionista que, desmontando as instituições que buscavam garantir as possibilidades de vida, ganhou seu ápice numa pandemia que nos ensina do que é feita uma sociedade construída sobre terreno frágil. A maioria de nós subestimou o tamanho do abismo social que se acampou no Brasil em 1500 a partir da dizimação de populações originais e o estabelecimento do mercado de pessoas para o ouro, o café e a cana. Após 520 anos, achamos que tínhamos superado muita coisa e nos comparávamos com democracias avançadas no mundo (elas existem?), subestimando o vazio cívico de que somos constituídos. A negação do passado é exatamente o que nos trouxe até aqui e o caminho adiante precisará ser ocupado por passos nunca antes dados. 

Alline Serpa

Alline Serpa lives in Petropolis, where she works as architect and professor. She met IofC in 1992, and since then has contributed in translating and managing the Portuguese section of IofC global website, as well as coordinating, with others, meetings and programs in Brazil and serving on the board of IofC-Brazil.

NOTE: Individuals of many cultures, nationalities, religions, and beliefs are actively involved with Initiatives of Change. These commentaries represent the views of the writer and not necessarily those of Initiatives of Change as a whole.